Objectos sem qualidades (Calendário – Publicação)

By Abril 22, 2018Textos

Dalila Gonçalves escolheu para esta publicação o formato de um livro de registo (implícita na origem latina da palavra – calendarium), onde reúne um conjunto significativo de obras, representativo da sua trajectória. Apesar de se intitular Calendário,o seu objetivo não é detalhar, mostrar e visualizar as obras, obedecendo a uma linha do tempo, com o fim de situar e ajudar a compreender as peças. Trata-se do uso do conceito para outros fins. Com essa apropriação a artista preferiu estabelecer um ciclo de estações, que se sucedem ao longo do livro, propondo temas que forneçam uma visão sobre diferentes aspectos da sua prática, estabelecendo possibilidades conceptuais de análise do seu trabalho.

Ainda assim o tempo é o maior aliado da prática artística e produtiva de Dalila Gonçalves. A sua obra é eminentemente processual. Muitos dos seus trabalhos demonstram essa atenção especial ao decorrer do tempo já que derivam de uma contínua actividade recolectora: reunir, acumular, colecionar, inventariar, dispor e expor são alguns dos meios e acções que articulam a sua obra. Digamos que os seus trabalhos assentam numa base dupla: o processo de colecionar objectos e o processo de instalação usado para dar um novo sentido e condição inédita ao conjunto. Esses
são, por exemplo, os principais fios condutores de Organic Time (2012-2013), obra que consiste no processo de reunião de um grupo de bolas brancas de bilhar usadas e no posterior arranjo destes objetos encontrados. Na mesma linha situa-se Playing with Time (2012- 2013), peça constituída
por 840 porta giz para tacos de bilhar que a artista foi coleccionando e acumulando paulatinamente, dispondo depois o seu conjunto numa configuração geometrizante.

Num campo de objectos banais, furtados, transferidos ou desviados da vida quotidiana e do seu valor de uso, e em tudo com características semelhantes, há porém, em cada recolecção, um pedido de atenção a uma mais lenta observação. É que se cada instalação nasce da composição e do alinhamento de iguais, não se pode deixar de perceber a heterogeneidade e as marcas inscritas por diferentes níveis de uso, desgaste, manuseio e acção do tempo sobre cada um dos múltiplos reunidos. De forma subtil e silenciosa, são essas variantes que mobilizam as qualidades estéticas, poéticas e afectivas do trabalho.

Sandra Vieira Jürgens